Entrevista com Pedro Fraga - em 25 anos de empreendedorismo, o que mudou em Portugal


Por: Daniel Araújo Há 4 anos, 2 meses atrás

Pedro Fraga, fundador da F3M em Braga, é uma presença habitual em vários eventos de empreendedorismo como orador e mentor. Para além de ser um empresário de referência, tem tido uma voz muito activa acerca do recrutamento de jovens, responsabilidade social das empresas e ainda investimento em startups. Convidamo-lo para uma entrevista onde tentamos aprofundar estes temas e tentamos perceber melhor a sua perspectiva sobre Portugal. Não percam também a sua palestra no TEDx de Viana do Castelo no ano passado!

Criou a F3M logo após a faculdade. 25 anos depois, acredita que é mais fácil os nossos jovens fazerem o mesmo? O que mudou na criação de valor (não só na criação de empresas no sentido restrito) em Portugal?

O “entorno” é hoje completamente diferente. Por um lado há um caldo de empreendedorismo que não existia nessa altura, há muito mais entidades dispostas a apoiar os projectos da gente mais nova, mas há uma diferença fundamental: hoje os projectos são muito mais globais (ou “glocais” se preferirem) enquanto há 25 anos os projectos eram regionais na sua maioria e, pontualmente, nacionais.

A criação e percepção de valor é hoje completamente diferente, pois o país “viu mundo”, os nossos jovens são muito mais globais e interagem cada vez mais com outras culturas e vivências. Os projectos são actualmente multipolares/multiculturais e alguns dos nossos jovens  estão hoje muito mais qualificados para competir a nível global do que estavam os jovens que criavam em empresas em 1987.

A vertente social da F3M, para além de ser parte fundamental da identidade da marca, já lhe valeu prémios. Qual a sua importância estratégica para os próximos anos, e porque decidiu como um ponto importante desde cedo?

As componentes de responsabilidade social ou são naturais ou não devem existir. É evidente que as empresas existem para levar valor aos clientes, rentabilizar o investimento dos seus accionistas e optimizar as condições dos seus colaboradores, mas não deixa de ser verdade que isto não pode ser apenas work, work, work e Money, Money, Money. Se  for apenas isto, não vale a pena, torna-se uma sensaboria sem limites. Admito que o facto de eu vir do interior profundo (Serra da Estrela, Seia), me tenha dado uma consciência maior do que são as dificuldades da vida, apesar de nunca as ter vivido, admito. É perfeitamente possível conciliar a rentabilidade da empresa e dos seus accionistas, com uma participação cívica e social activa e apraz-me registar que hoje essa é uma das marcas da F3M.

A empresa não tem, como PME,  a capacidade de ter uma politica de RSO baseada no mecenato, mas tem uma forte intervenção que se baseia no empenho e envolvimento dos seus colaboradores. Aliás, costumo dizer que a politica de RSO da empresa se baseia em 1º lugar no envolvimento, em 2º lugar, no envolvimento e em 3º lugar … no envolvimento.

Além de ser algo que a mim como accionista, me satisfaz profundamente, tenho que admitir que é algo que motiva fortemente os nossos colaboradores e lhes traz um sentimento de identificação com os valores intrínsecos da F3M.

 

Na sua recente apresentação no TEDx em Viana do Castelo, falou em oportunidades de negócio que não são tecnológicas e em negócios que podem perfeitamente ser viáveis no mercado local. Acredita que, até em Portugal, há um sobreinvestimento na Internet?

Não o vejo tanto como um sobreinvestimento, mas sim com uma realidade que é inquestionável: os negócios “internet based” são sexy, os exemplos de sucesso geram uma cultura de glamour e muitos jovens pensam, de forma legitima ou não, que o sucesso/dinheiro está naquela app que é a sua “menina dos olhos”. Por outro lado, as universidades investiram muito em formação académica na área TIC e daí ser normal que apareçam milhares de projectos TIC, 100% web based.

Quando eu digo que pode haver projectos locais costumo dar o exemplo do “passear os cães da minha rua”. Se isso for um projecto que preencha os requisitos profissionais/financeiros de alguém, não vejo porque é que esse projecto não pode ser valido. É obvio que como investidor procuro projectos que possam ganhar escala, que sejam inovadores, etc, etc. Mas, há mundo para além dos projectos Web based, há mundo para além dos projectos TIC puros.

É por isso que eu digo a todos os jovens: não há que ter vergonha se o vosso projecto é de âmbito local, desde que ele cumpra os vossos objectivos. Se isto é “pensar pequenino”? Sê-lo-á com certeza para alguns, mas é importante que os jovens apostem naquilo em que podem inovar, naquilo em que podem ser bons e não apenas naquilo que é a onda de mercado (neste momento, por exemplo, tudo o que é tecnologias emergentes, pois as TIC são já passado).

Ainda nessa apresentação, referiu que certas pessoas não têm "características de empregabilidade". Adorei este conceito. Pode explicar este desfazamento entre os jovens e o mercado de trabalho?

Infelizmente tenho que voltar a referir isso. Sabe que eu continuo a achar que isso ainda é uma herança do salazarismo, aqui sim do pensamento miudinho, pequenino, mesquinho. As famílias assumem que entregam ao estado um filho aos 3, 4 meses e esse mesmo estado, 21 anos depois (com Bolonha…) tem que lhes entregar um produto acabado, preferencialmente já com um emprego angariado. É obvio que estou a ser maximalista, há milhares de excepções com certeza, mas o que é um facto e que falo com centenas (mesmo alguns milhares) de jovens que sinto que não estão minimamente preparados para ser uma efectiva mais valia para o mercado: escrevem mal em português, verbalizam de forma assustadora, chegam aos 21 anos indicando que agora a seguir é que vão aprender inglês, têm uma cultura geral próximo da indigência, etc.

Repare, isto em nada contraria a minha resposta à questão inicial: os nossos jovens são hoje mais “mundanos”, mas isso não invalida que com o aumento da competitividade no mercado de trabalho, tenhamos caído numa situação de jovens que podem ter skills académicos/técnicos apreciáveis, mas que depois falham rotundamente em áreas que são vitais. Qual é a empresa que quer contratar um jovem que nunca poderá ter reuniões com clientes pois não domina o português; qual a empresa multipolar que quer contratar um jovem que tem apenas inglês de turista, qual a empresa que põe numa reunião com um cliente um jovem que não consegue ter uma conversa sobre a evolução dos países emergentes, a crise Síria, etc, etc.

Poderá parecer paradoxal, mas eu acho que esta é uma geração… interessante e que em muitos casos, o problema esta na geração que a antecedeu (os pais) que como disse no inicio, são ainda em muitos casos, filhos da pequenez intelectual salazarista, em que tínhamos o Deus, Pátria e Família e a minha humilde casinha !!!  As famílias têm que perceber que têm que trabalhar as carreiras dos seus filhos desde os primeiros dias de vida, não se alheando dessa “carreira” e não entregando a terceiros a responsabilidade que deve ser sua.

O capital de risco em Portugal é competitivo? Como podemos aproximar mais os empreendedores e os investidores?

Sou português, gosto muito do meu país, mas a realidade é a que é: somos um país pequeno, somos um país em que os investidores reflectem a realidade que temos. Sou visceralmente contra a aplicação de modelos de alavancagem/aceleração de negócios desfasados da nossa realidade e isto não significa que não tenhamos que aprender com quem tem décadas de avanço e sabe muito mais do que nós sobre investimento. Mas, não posso concordar em aplicar “by the book” modelos que são sucesso em países de muito maior dimensão, com muito mais geração de riqueza e com uma solida cultura de investimento.

Existem em Portugal inúmeras formas de junção entre investidores e empreendedores, muitas delas com intervenção exclusiva de privados. Claro que há sempre possibilidades de melhorar mas no essencial, os projectos e os empreendedores sabem, no nosso país, onde estão os investidores e a que portas bater. Por outro lado, os investidores sabem onde estão os bons projectos e julgo que neste âmbito fizemos, como país, um trabalho intenso e profícuo nos últimos anos.


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