Entrevista - O Empreendedorismo Social com a Inpakt


Por: Daniel Araújo Há 4 anos, 2 meses atrás

Duas semanas depois de ter festejado o seu 6º aniversário, a Inpakt é hoje uma referência portuguesa no empreendedorismo social. Lançaram recentemente uma nova página muito mais intuitiva e funcional. A área social tem imenso potencial para ser inovada através do empreendedorismo e da tecnologia, por isso ficamos muito contentes de poder dar destaque a este projeto. Obrigado ao Bernardo Macedo, CEO da Inpakt - pela entrevista!


Como surgiu a ideia de criar esta rede social?

Em 2007 quis participar numa acção de voluntariado em que apenas um ano depois foi contactado para efectuar um trabalho numa causa e localização totalmente diferentes das quais tinha selecionado.

Após um tempo a reflectir, pensei que muitas mais pessoas estariam na mesma situação, de querer agir e não conseguirem. Da mesma forma, as organizações contactavam telefonicamente com potenciais voluntários e não obtinham compromissos.

Foi assim que de 2008 a 2009, aprendi a programar e lancei oficialmente no dia 21 de Março de 2009 o Inpakt.

 

Quem são os fundadores e como se desenvolveu a equipa?

Sou o fundador, mas de momento conto já com uma equipa de mais 3 co-fundadores e outros colaboradores fixos, fazendo já o total de 7 pessoas envolvidas de forma regular. Estão apresentados no website.

 

O propósito inicial foi criar uma startup? Como se expandiu?

O propósito inicial nunca foi de criar uma startup, mas sim de colmatar uma necessidade de forma altruísta. 

Mais tarde, e porque era necessário angariar uma força financeira elevada, foi necessário recorrer a  financiamento por capital de risco e a business angels a nível nacional. A empresa abriu então em Agosto de 2013.

 

Qual é o principal objetivo desta rede social?

Mudar o mundo é o objectivo desta rede. Melhorando a forma de como as organizações que agem em torno do terceiro sector se podem mobilizar, angariar fundos, gerir os seus voluntários e reduzir os seus custos operacionais. 

A nossa missão é "Queremos ser a melhor plataforma online para a mudança social, capacitando pessoas e organizações pela partilha de ferramentas e de conhecimentos com vista à criação de um futuro melhor."

 

A quem se destina?

A rede destina-se a organizações sem fins lucrativos (associações, mutualidades, cooperativas, IPSS, fundações, ONG, ONGD), empresas socialmente responsáveis, doadores e voluntários. Haverá mais tipos de membros no futuro.

 

Como funciona esta plataforma?

Toda a plataforma tem por objecto uma rede social que liga todos os intervenientes. Assim, é mais fácil partilhar conteúdo por parte das organizações que querem comunicar com os seus seguidores, doadores e voluntários. Um membro pode inscrever-se como voluntário e poder também efectuar donativos. No que diz respeito às organizações sem fins lucrativos podem partilhar acções de voluntariado e angariar fundos através da internet.

Somos um agregador das funcionalidades mais requisitadas por estas entidades numa plataforma só.

 

Qual é o modelo de negócio?

Atualmente o Inpakt retira uma comissão de transacção para processamento dos donativos, que mesmo assim é muito inferior aos custos que uma organização sem fins lucrativos despenderia para conseguir angariar fundos de outras formas. Com planos de valor fixo e variável, as organizações podem selecionar a solução mais vantajosa. No entanto o objectivo do Inpakt e com a economia de escala, é fazer com que esse valor venha a ser tendencialmente zero, fazendo assim chegar ainda mais às organizações.

 

Existe uma grande dinâmica dentro da plataforma. Este impacto surgiu para facilitar a forma de impulsionar a relação da ajuda social, nomeadamente entre os voluntários e as organizações solidárias?

Inicialmente sim. O dinamismo que se constrói nesta plataforma ajuda sem dúvida a impulsionar a relação dos diferentes intervenientes. Facilitando a mobilização de voluntários para as organizações. Com a introdução da plataforma de donativos, também assim se cria valor no que diz respeito à forma de angariar na internet. O Inpakt conta com funcionalidades que permitem o crescimento orgânico de donativos. Queremos que cada donativo possa valer dois. Apenas pela forma de como os comunicamos.

No entanto, também ajudamos as instituições com guias de “boas práticas” para as ajudar ainda mais a desempenhar um bom trabalho.

Como estamos e reprogramar toda a plataforma as funcionalidades sociais ainda não forma repostas, mas é para muito breve.

 

A Inpakt diferencia-se de outros projetos de solidariedade. De que forma?

Um projeto de solidariedade ajuda diretamente quem precisa de ajuda. O Inpakt ajuda e facilita quem quer ajudar. São duas coisas diferentes. Logo o Inpakt não é um projecto de solidariedade mas sim um projecto de empreendedorismo social, em que todas as ações que fazemos contribuem para que quem quer ajudar, o faça da melhor forma. Mais nenhum tem uma vocação internacional à nascença ou apresenta um formato de rede social.

 

Neste momento esta rede social conta já com alguns números. Quais as próximas etapas e ideias para o futuro?

A otimização da plataforma e a sua escalabilidade a nível mundial, são sem dúvida os próximos passos a seguir. Queremos criar perfis de doadores, voluntários, organizações sem fins lucrativos e empresas socialmente responsáveis, para que através destes dados possamos desenvolver melhores funcionalidades e verificar tendências no sector. A plataforma por ser completamente georreferenciada, pode ter acesso a dados nunca antes vistos, como por exemplo, as tendências de donativos e voluntariado por regiões, tipo de atividade, tamanho de organização, por qualquer faixa etária e género dos utilizadores. Estes dados ajudam organizações a desenvolver melhores esforços sociais baseados em estatística.

 

Quais são os maiores desafios de trabalhar com o IPSS?

Existem diferentes tipos de organizações sem fins lucrativos. Muitas delas profissionalizadas, outras ainda a um passo grande de se profissionalizarem. Assim o nosso desafio é ser claro o suficiente para as pequenas organizações e ter um produto capaz para as grandes organizações. Tendo uma plataforma que serve diferentes mercados e tamanhos de organizações, o desafio está sem dúvida nos canais de comunicação que usamos para publicitar a rede.


Como vês o Empreendedorismo Social em Portugal?

O empreendedorismo social em Portugal ainda está a dar os seus primeiros passos. Diria que sempre existiram os “empreendedores sociais” mas não sabiam apenas por que nome se haveriam de chamar. Isto porque a forma jurídica de “empresa social” ainda é inexistente. Então os diferentes “empreendedores sociais” escolhem entre as mais diversas formas jurídicas de levarem a sua grande ideia a bom porto. O ecossistema de empreendedorismo social não conta apenas com empreendedores sociais, mas também com investidores ou “impact investors” que investem em sustentabilidade para a sociedade. Assim em Portugal, este ecossistema ainda se encontra escasso em investidores sociais, ou que pelo menos tenham acesso a ferramentas que permitam o acompanhamento de projetos medindo o seu retorno financeiro e social.

 

Ao longo destes anos e com tudo o que têm experienciado, sentes que ainda existe muita vontade de ajudar?

A vontade de ajudar nunca acabou, nem nunca vai acabar. O grande problema é que quem quer ajudar não sabe como ou pensa que o processo é muito complicado. O Inpakt fornece esta plataforma, de simplificar a forma de seleção para quem quer ajudar, facilitando o processo por parte das instituições sem fins lucrativos que precisam de ajuda. Por outras palavras o que quero dizer é que o compromisso

Qual é a mudança que querem ver no mundo?

Como visionário e fundador do Inpakt, a mudança que quero ver é uma gestão mais optimizada por parte das organizações que interagem no terceiro sector. Existem instituições de solidariedade que fazem um trabalho fantástico, que têm um líder com uma visão única e exclusiva para resolver um determinado problema, mas muitas vezes, e por estarem focados em ajudar, faltam-lhes os recursos necessários e gestão da componente de operações para gerir uma instituição de solidariedade. Quando este líder começa a entrar na parte operacional, perde a sua paixão na burocratização dos processos. Assim, um sonho individual de mudar o mundo, converte-se numa bola de neve que envolve operações financeiras, gestão de recursos humanos, entre outros. O Inpakt quer ver a componente operacional e de gestão livre do líder da organização, de forma a que este se sinta livre para fazer o que se propôs: mudar o mundo seu redor. Por consequência, o Inpakt, operacionalizando todas estas frentes muda o mundo.

 

De que forma o Empreendedorismo Social pode influenciar um país/sociedade?

O empreendedorismo social, sendo um constante processo de procura de soluções que visam colmatar problemas sociais, pode sem dúvida influenciar um país ou sociedade. A sociedade rege-se por leis, boas práticas que são criadas e iteradas de forma a criarem sustentabilidade e evolução. A componente de empreendedorismo social é apenas um dos muitos processos que precisa de ser iterado até atingir a perfeição na sua implementação.

O conhecimento adquirido na área do empreendedorismo social, guardado, explorado e iterado, contribui para um avanço significativo no que diz respeito a investimentos sociais, categorização dos esforços sociais e exploração de métricas que se incluam em relatórios finais. Apenas assim se consegue medir o esforço que se desempenha no combate a um determinado problema.

O empreendedorismo social não tenta apenas colmatar um determinado problema, mas também efetua a sua análise em cada passo, em cada iteração, melhorando assim iterativamente a solução de combate ao problema.

E dado o paradigma económico que conhecemos, estamos claramente no caminho certo ao capacitarmos um terceiro sector forte como contraponto de uma retração do contributo público habitual.


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