Observar por dentro o empreendedorismo português: casos de sucesso


Por: Fábio Silva Há 3 anos, 1 mês atrás

Primeiro semestre de 2011. Um dos períodos mais negros da História de Portugal. Com o governo a precisar de cerca de 78 mil milhões euros de resgate internacional em troca de uma série de medidas de austeridade, a economia portuguesa daria início à sua pior recessão desde há mais de 40 anos. No entanto - diz o ditado popular - é nas grandes batalhas que se veem os grandes guerreiros. E assim foi. Dizem os números que Portugal nunca vira uma geração tão rica em jovens empreendedores como aquela que agora parece decidida em inverter o rumo do seu país.


E casos não faltam. A começar pelo casal Tilli. Quando Portugal foi atingido pela crise económica em 2011, Magda e seu marido Miguel perceberam que se queriam ter uma vida sem demasiados apertos teriam de criar o seu próprio negócio. Na época, Miguel trabalhava como agente imobiliário, mas com o mercado português em queda livre, os ganhos não superavam os gastos.

Com o mercado de trabalho cada vez menos próspero e os quatro filhos para cuidar, Magda e Miguel decidiram que não tinham outra opção: deviam criar a sua própria empresa.

Graças ao amplo conhecimento de Miguel relativamente ao mercado imobiliário, o casal acreditou que poderia encontrar uma transformar um problema numa grande oportunidade de negócio.

Assim, o casal decidiu lançar um negócio imobiliário especializado no aluguer de casas no centro da cidade de Lisboa suprimindo a falha deixada pela maioria das agências imobiliárias portuguesas, que lidam apenas com a venda de casas.

Magda Tilli

Magda e Miguel Tilli são proprietários de uma agência especializada em arrendamento de imóveis

Como a maioria ainda não tem capacidade para comprar um imobiliário, grande parte dos jovens de Lisboa começou a aderir ao negócio do casal Tilli – Home Lovers.

No sentido de reduzir os custos e para facilitar o arranque da empresa, decidiram inicialmente apresentar as propriedades disponíveis apenas no Facebook. No entanto, o casal contratou profissionais para que todas as fotografias fossem de alta qualidade. Desta forma, a empresa ganhava credibilidade junto do público.

Uma das primeiras prioridades do casal era atrair jovens. Para isso, concentraram-se em apartamentos modernos e urbanos. Desta forma, o negócio teve logo impacto, já que conseguiram de imediato chegar a um bom fluxo de clientes, fossem pessoas que desejavam alugar um imóvel, fossem os proprietários que queriam anunciar.

"Tornou-se uma boa experiência arrendar uma casa através da nossa empresa", refere Magda, que já trabalhou como comissária de bordo da TAP.

A Home Lovers acabou por se expandir para o Porto e Cascais e conta já com uma equipa de de 20 trabalhadores. O próximo passo poderá ser Madrid. No entanto, Magda mostra-se um pouco reticente: “Estamos um pouco assustados com essa hipótese, mas também não acreditamos que possamos explorar mais cidades aqui em Portugal”.

A street in central Lisbon

A economia portuguesa continua fraca apesar das ligeiras melhorias

 

Empresários "Wannabe"

Para entender porque é que o empreendedorismo, ou a criação de um negócio, é agora tão popular em Portugal, o leitor só precisa de lembrar que o desemprego continua em níveis muito altos, mesmo depois da recessão ter abrandado em 2013. A taxa de desemprego em Portugal subiu de 7,6% em 2008 para 14,1% em junho deste ano. A situação é ainda pior para os jovens adultos, com uma em cada três pessoas com idades entre 15 a 24 anos sem trabalho, de acordo com números da Eurostat.

Paulo Soares de Pinho, professor na Nova School of Business and Economics, em Lisboa, e gestor do seu próprio fundo de investimento, diz que uma das maiores mudanças trazidas pela crise económica em Portugal foi "transformar muitos desempregados em empresárioswannabe".

No entanto Paulo Pinho adverte que, apesar de muitos jovens que trabalham sobretudo a área da tecnologia estão a aparecer com novos produtos, nem todos são capazes de transformá-las num negócio viável.

"Estamos a atravessar uma espécie de moda “app” no empreendedorismo. Qualquer jovem que saia de uma escola de engenharia acaba por desenvolver uma app e com isto acha que já tem uma empresa. Acontece que há muitos projetos de tecnologia que não apresentam qualquer orientação de mercado".

Carlos Silva, co-fundador do site Seedrs de financiamento público, concorda que em Portugal "muitas startups vão para a frente apenas porque o empreendedorismo é agora uma tendência". No entanto, Carlos Silva acrescenta que há "cada vez mais startups de excelente qualidade."

Young entrepreneurs at Start-up Lisboa

Especialistas afirmam que Portugal nunca teve tantos aspirantes a novos empresários

Para ajudar a promover o espírito empresarial, o Governo Português criou o conhecido +rograma Portugal Ventures – um organismo de investimento que injecta cerca de 20 milhões de euros por ano em startups. Incubadoras de startups também surgiram nos últimos anos com a premissa de impulsionar os seus negócios nos primeiros meses de vida das novas empresas.

 

Transformação de negócios

Anthony Douglas é outro empreendedor que também recorreu a um organismo de investimento - o Start-up Lisboa - para impulsionar o seu negócio.

Anthony é o fundador da Hole19, uma app de golfe que mapeia milhares de campos de golfe de todo o mundo, permitindo que os jogadores armazenem estatísticas sobre os seus próprios desempenhos.

Filho de mãe portuguesa e pai americano, o jovem empreendedor explica que o negócio esteve perto de morrer por várias vezes, não tendo dinheiro para o poder manter. "Houve meses em que parei de pagar o meu próprio salário e que tivemos que pedir dinheiro a familiares”.

No entanto, o Anthony foi capaz de dar a volta à situação tornando a aplicação gratuita. O objetivo agora é obter lucro através da reserva de campos de golfe através da aplicação. Desde então o Hole19 foi descarregado 220 mil vezes nos primeiros 90 dias depois de se tornar gratuito. E, recentemente, Anthony angariou € 900.000 provenientes investidores estrangeiros.

Anthony Douglas

 Anthony Douglas nem nos momentos de lazer se desliga do golfe

João Romão, 25 anos, é outro jovem empreendedor Português que conseguiu inverter uma situação em tudo pouco positiva. A sua primeira empresa startup, baseada na ideia de uma lista de presentes partilháveis entre lojas on-line, depress afalhou.

Implacável, João está agora a desenvolver um negócio chamado GetSocial, que visa ajudar as empresas a promover o seu conteúdo em redes sociais, medindo o seu impacto. Em dezembro do ano passado, o jovem empresário garantiu 630.000 € de investimento.

 


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